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LGPD: Como Denunciar Vazamento de Dados Pessoais

HI SPY
·10 de fevereiro de 2026·10 min de leitura
LGPD: Como Denunciar Vazamento de Dados Pessoais

Você recebe uma notificação informando que seus dados pessoais foram expostos em um vazamento de uma empresa na qual você tem cadastro. Nome completo, CPF, endereço, telefone e histórico de compras — tudo acessível a quem não deveria ver. A empresa pede desculpas, sugere que você "monitore suas contas" e segue operando normalmente. A pergunta que poucos brasileiros sabem responder é: e agora, como denunciar vazamento de dados LGPD na prática? Quais são seus direitos reais e como exercê-los de forma efetiva?

A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018), em vigor desde setembro de 2020, transformou fundamentalmente a relação entre cidadãos e organizações que tratam seus dados pessoais. Ela não apenas criou obrigações para empresas, mas também conferiu direitos concretos aos titulares de dados — direitos que a maioria dos brasileiros desconhece ou não sabe como exercer. Segundo pesquisa do DataPrivacy Brasil (2024), apenas 32% dos brasileiros sabem que podem solicitar a exclusão de seus dados pessoais de uma empresa, e menos de 10% já exerceram algum direito previsto na LGPD.

Neste artigo, vamos detalhar o passo a passo para denunciar vazamentos de dados à ANPD, explicar cada direito que a LGPD garante ao titular, mostrar como documentar e formalizar reclamações e discutir as possibilidades de reparação judicial por danos causados por vazamentos.

Seus Direitos Como Titular de Dados: O Que a LGPD Garante

Antes de falar em denúncia, é essencial entender o que a lei efetivamente garante a você. O artigo 18 da LGPD estabelece um conjunto robusto de direitos que podem ser exercidos a qualquer momento, independente de ter ocorrido um vazamento. Conhecer esses direitos é o primeiro passo para cobrar das empresas o tratamento adequado dos seus dados.

O direito de acesso é talvez o mais fundamental. Você pode solicitar a qualquer empresa que trate seus dados pessoais uma confirmação da existência do tratamento e acesso aos dados específicos que ela possui sobre você. A empresa é obrigada a responder em até 15 dias, em formato claro e acessível. Na prática, isso significa que você pode perguntar ao seu banco, à sua operadora de celular, ao e-commerce onde comprou um par de meias ou à academia que você frequentou há cinco anos: "quais dados vocês têm sobre mim?" — e todos são obrigados a responder.

O direito de eliminação permite que você solicite a exclusão dos seus dados pessoais quando eles não forem mais necessários para a finalidade que justificou a coleta. Se você cancelou uma assinatura de streaming há dois anos, a empresa não tem justificativa para manter seu CPF, endereço e histórico de navegação. Existem exceções (obrigações legais de guarda, como a fiscal por 5 anos), mas o princípio é claro: dados sem finalidade devem ser eliminados. A empresa que se recusa a deletar dados sem justificativa legal está em violação da LGPD.

O direito à portabilidade, à correção de dados inexatos e à revogação de consentimento completam o arsenal do titular. Você pode exigir que seus dados sejam transferidos para outro prestador de serviço, corrigir informações desatualizadas ou incorretas, e retirar o consentimento previamente dado para tratamento de dados — sem precisar justificar o motivo. Para profissionais que trabalham com investigação digital corporativa, o conhecimento desses direitos é duplamente relevante: tanto para proteger dados próprios quanto para orientar clientes em processos de compliance.

Passo a Passo: Como Denunciar um Vazamento à ANPD

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) é o órgão responsável por fiscalizar o cumprimento da LGPD no Brasil. Quando uma empresa falha em proteger seus dados pessoais — seja por vazamento, uso indevido ou negativa em atender seus direitos — a ANPD é a instância administrativa competente para receber sua denúncia e tomar providências.

O processo começa com a tentativa de resolução direta com a empresa. A ANPD orienta que, antes de formalizar uma denúncia, o titular entre em contato com o DPO (Encarregado de Proteção de Dados) da organização. Toda empresa que trata dados pessoais é obrigada a ter um DPO e a divulgar seus dados de contato (geralmente no rodapé do site ou na política de privacidade). Envie um e-mail formal solicitando informações sobre o vazamento: quais dados foram expostos, quando ocorreu, quais medidas foram tomadas e o que a empresa está fazendo para mitigar os danos. Documente tudo — esse registro será fundamental se a denúncia avançar.

Se a empresa não responder em 15 dias, responder de forma insatisfatória ou se recusar a atender seus direitos, o próximo passo é formalizar uma petição de titular na ANPD. O processo é feito integralmente online através do portal peticionamento.anpd.gov.br. Você precisará criar uma conta gov.br (se ainda não tiver), preencher o formulário detalhando a situação e anexar as evidências: comprovante de contato com a empresa, resposta recebida (ou comprovação da falta de resposta), prints de notificações de vazamento, e qualquer documentação que demonstre o tratamento inadequado dos seus dados.

A ANPD analisa a petição e pode tomar diversas providências: solicitar esclarecimentos à empresa, determinar a adoção de medidas corretivas, aplicar advertências ou multas. As multas previstas na LGPD podem chegar a 2% do faturamento da empresa no Brasil, limitadas a R$ 50 milhões por infração — valores que a ANPD já começou a aplicar efetivamente desde 2023. A denúncia à ANPD não impede a busca simultânea de reparação judicial por danos, que veremos adiante.

Para quem quer monitorar proativamente se seus dados foram comprometidos, existem ferramentas e serviços que verificam a presença do CPF na dark web — uma medida complementar que permite identificar vazamentos que a empresa pode nem ter comunicado.

Documentando o Vazamento: Evidências Que Fazem Diferença

A qualidade da documentação que você apresenta — seja à ANPD, a um advogado ou a um juiz — pode determinar o resultado da sua reclamação. Vazamentos de dados são eventos digitais que podem ser difíceis de comprovar retrospectivamente, tornando a documentação contemporânea (feita no momento em que o problema é descoberto) absolutamente essencial.

O primeiro registro deve ser a notificação original do vazamento, se houver. Empresas que comunicam vazamentos geralmente o fazem por e-mail ou aviso em seu site/aplicativo. Faça screenshots com timestamp visível (data e hora na barra do sistema), salve o e-mail completo (incluindo cabeçalhos) e, se possível, registre a tela com uma ferramenta de captura de vídeo. Se a notificação veio pelo aplicativo, grave a tela do celular antes que ela desapareça. Para análises mais aprofundadas, as técnicas de análise de metadados em e-mails podem comprovar a autenticidade e o timestamp da comunicação.

O registro de toda comunicação com a empresa é igualmente importante. Guarde e-mails enviados e recebidos, protocolos de atendimento, prints de chatbots, gravações de ligações (quando permitido) e qualquer outra forma de interação. Se a empresa afirmou algo por telefone, envie um e-mail imediatamente após resumindo o que foi dito e solicitando confirmação por escrito. Esse registro serve tanto como prova de que você tentou resolver diretamente quanto como evidência da postura da empresa.

Se você identificou impactos concretos do vazamento — como cobranças fraudulentas, abertura de contas não autorizadas, ou mensagens de phishing direcionadas usando seus dados vazados — documente cada ocorrência com detalhes. Extratos bancários mostrando transações não reconhecidas, notificações do SPC/Serasa sobre consultas ao seu CPF que você não autorizou, e e-mails de phishing que usam informações pessoais que só poderiam ter vindo do vazamento são evidências poderosas que conectam o vazamento a danos concretos.

Uma ata notarial, lavrada em cartório, é a forma mais robusta de documentar evidências digitais. O tabelião acessa os sites, e-mails ou documentos na sua presença e produz um documento com fé pública atestando o conteúdo encontrado naquela data e hora. O custo varia de R$ 300 a R$ 800 dependendo do cartório e da extensão do conteúdo, mas em casos de vazamentos graves com potencial de ação judicial, é um investimento que fortalece enormemente a prova.

Reparação Judicial: Quando e Como Buscar Indenização

A via administrativa (ANPD) é importante para a punição e correção institucional, mas frequentemente não resulta em compensação financeira direta ao titular afetado. Para buscar reparação por danos morais e materiais decorrentes do vazamento, o caminho é o Poder Judiciário — e a jurisprudência brasileira tem evoluído favoralvelmente ao titular de dados.

O artigo 42 da LGPD estabelece que o controlador ou operador que causa dano a outro em razão do tratamento de dados pessoais é obrigado a repará-lo. A responsabilidade é objetiva nas relações de consumo — o que significa que o titular não precisa provar culpa da empresa, apenas o dano e o nexo causal com o vazamento. Isso simplifica significativamente a ação judicial para consumidores que tiveram dados expostos.

Tribunais brasileiros já condenaram empresas a pagar indenizações por vazamento de dados. Os valores variam significativamente: decisões de Juizados Especiais (até 40 salários mínimos, sem necessidade de advogado) têm fixado indenizações entre R$ 2.000 e R$ 10.000 por dano moral presumido (quando o próprio vazamento é considerado suficiente para configurar dano). Em ações na Justiça Comum, com comprovação de danos concretos (fraudes financeiras, negativação indevida, constrangimento público), as indenizações têm alcançado de R$ 10.000 a R$ 50.000 ou mais.

A ação nos Juizados Especiais Cíveis é o caminho mais acessível para a maioria dos cidadãos. Para causas de até 20 salários mínimos, não é necessário advogado, e o procedimento é simplificado e gratuito. A petição inicial deve descrever os fatos (o vazamento, os dados expostos, os danos sofridos), indicar a fundamentação legal (LGPD artigos 42-45, CDC artigos 6° e 14) e quantificar o pedido de indenização. Anexe toda a documentação que você reuniu — quanto mais robusta a prova, maiores as chances de uma condenação significativa.

Para ações de maior valor ou complexidade, a contratação de um advogado especializado em direito digital é recomendável. Muitos escritórios trabalham com honorários condicionados ao êxito (recebem percentual da indenização obtida), reduzindo o risco financeiro para o titular. As tendências da computação forense indicam que a demanda por perícias técnicas que comprovem vazamentos e seus impactos só vai crescer nos próximos anos.

Obrigações da Empresa: O Que a Lei Exige Após Um Vazamento

Entender as obrigações legais da empresa não é apenas relevante para advogados — é fundamental para o titular avaliar se a organização está cumprindo a lei e, caso não esteja, fundamentar adequadamente sua denúncia ou ação judicial.

O artigo 48 da LGPD obriga o controlador a comunicar à ANPD e ao titular a ocorrência de incidente de segurança que possa acarretar risco ou dano relevante aos titulares. A comunicação deve ser feita em prazo razoável (a ANPD recomenda até 2 dias úteis do conhecimento do incidente) e deve incluir: a descrição da natureza dos dados afetados, informações sobre os titulares envolvidos, indicação das medidas técnicas e de segurança utilizadas, os riscos relacionados ao incidente, as medidas que foram ou serão adotadas para reverter ou mitigar os efeitos, e os motivos da demora caso a comunicação não tenha sido imediata.

Na prática, muitas empresas tentam minimizar vazamentos ou simplesmente não os comunicam — o que constitui infração adicional à LGPD. Se você descobre que seus dados foram vazados por fontes externas (como monitoramento na dark web, notícias ou alertas de serviços de monitoramento) e a empresa nunca o informou, essa omissão agrava significativamente a responsabilidade da organização e fortalece qualquer pedido de indenização.

A LGPD também exige que empresas implementem medidas técnicas e administrativas adequadas para proteger dados pessoais. O artigo 46 é claro: o controlador deve adotar medidas de segurança aptas a proteger os dados contra acessos não autorizados, situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração ou comunicação. Se a investigação revelar que a empresa não tinha medidas básicas de segurança — como criptografia de dados sensíveis, controle de acesso adequado ou monitoramento de intrusão — a negligência fica caracterizada e a responsabilização se torna mais direta.

Procons, Ministério Público e Outras Vias de Reclamação

A denúncia à ANPD não é a única via administrativa disponível, e em muitos casos, abrir frentes simultâneas em diferentes órgãos aumenta a pressão sobre a empresa e as chances de resolução efetiva. O sistema brasileiro de proteção ao consumidor oferece múltiplos canais que podem ser acionados em paralelo.

O Procon é particularmente eficaz para casos envolvendo relações de consumo. Quando o vazamento ocorre em uma empresa com a qual você tem relação comercial (banco, operadora, loja, prestador de serviço), o Procon pode intermediar a resolução, aplicar multas estaduais/municipais e encaminhar o caso ao Ministério Público quando a violação afeta múltiplos consumidores. A reclamação no Procon pode ser feita presencialmente ou online, dependendo do estado, e é gratuita.

O consumidor.gov.br é a plataforma federal de resolução de conflitos entre consumidores e empresas. Embora não tenha poder coercitivo, a maioria das grandes empresas monitora e responde ativamente às reclamações registradas na plataforma — a taxa de resolução é superior a 80% para empresas cadastradas. Registrar sua reclamação ali cria um registro público e oficial do problema, útil tanto para pressionar a empresa quanto como evidência em eventual ação judicial.

O Ministério Público (Federal ou Estadual) é o caminho adequado quando o vazamento afeta um grande número de pessoas. Através de Ação Civil Pública, o MP pode obrigar a empresa a adotar medidas corretivas, pagar indenizações coletivas e implementar programas de proteção de dados. Qualquer cidadão pode fazer uma representação ao MP relatando o vazamento — e quando o órgão identifica violação grave ou reiterada, frequentemente atua de ofício.

Para casos que envolvem investigação técnica da origem e extensão do vazamento, ferramentas OSINT podem ajudar o titular a documentar como e onde seus dados estão circulando, fortalecendo a fundamentação da denúncia.

FAQ

Como denunciar vazamento de dados à ANPD passo a passo?

Primeiro, tente resolver diretamente com a empresa entrando em contato com o DPO (Encarregado de Dados). Aguarde 15 dias úteis pela resposta. Se não houver resposta ou ela for insatisfatória, acesse peticionamento.anpd.gov.br, faça login com sua conta gov.br, preencha o formulário de petição de titular detalhando o vazamento e anexe evidências: comprovante de contato com a empresa, resposta recebida, prints da notificação do vazamento e documentos que comprovem os danos. A ANPD analisará e pode solicitar esclarecimentos à empresa, determinar medidas corretivas ou aplicar multas de até 2% do faturamento.

Posso pedir indenização por vazamento de dados?

Sim. O artigo 42 da LGPD garante o direito à reparação por danos morais e materiais decorrentes de tratamento inadequado de dados pessoais. A responsabilidade é objetiva nas relações de consumo — você não precisa provar culpa da empresa, apenas o dano e o nexo causal. Ações podem ser ajuizadas nos Juizados Especiais Cíveis (até 20 salários mínimos sem advogado) ou na Justiça Comum. Tribunais brasileiros já condenaram empresas a pagar entre R$ 2.000 e R$ 50.000 por titular, dependendo da gravidade do caso e dos danos comprovados.

A empresa é obrigada a me avisar sobre um vazamento de dados?

Sim, quando o incidente puder acarretar risco ou dano relevante. O artigo 48 da LGPD obriga o controlador a comunicar à ANPD e aos titulares afetados. A comunicação deve incluir a natureza dos dados afetados, os riscos envolvidos e as medidas adotadas. A ANPD recomenda que a comunicação seja feita em até 2 dias úteis. Se a empresa não comunicou um vazamento que você descobriu por conta própria, essa omissão constitui infração adicional à LGPD e agrava a responsabilidade da organização.

Quais dados são protegidos pela LGPD?

A LGPD protege todo dado pessoal — qualquer informação relacionada a uma pessoa natural identificada ou identificável. Isso inclui nome, CPF, RG, endereço, telefone, e-mail, dados bancários, histórico de navegação, geolocalização, dados biométricos, informações de saúde, convicções religiosas, opiniões políticas e muito mais. Dados sensíveis (origem racial, convicção religiosa, opinião política, dados de saúde, dados genéticos, biometria) recebem proteção ainda mais rigorosa, com bases legais mais restritivas para tratamento. A proteção se aplica tanto a dados digitais quanto físicos.


Seus dados pessoais merecem proteção ativa. Se você é profissional de investigação e precisa rastrear a origem de vazamentos ou localizar responsáveis por uso indevido de dados, o HI SPY oferece geolocalização de dispositivos em tempo real sem instalação no alvo — uma ferramenta profissional para investigações que conectam violações digitais a indivíduos no mundo real.