Você acabou de descobrir que suas fotos pessoais estão sendo usadas em um perfil falso. Ou que alguém acessou suas contas bancárias sem autorização. Ou que está recebendo ameaças por mensagens. A primeira reação é a raiva. A segunda é a dúvida: o que eu faço agora? A resposta começa com um passo que muitas pessoas adiam ou ignoram completamente — registrar um boletim de ocorrência online crimes digitais. Sem o BO, sua reclamação é informal. Com ele, sua situação se torna um caso oficial com número de protocolo, prazo de investigação e respaldo jurídico.
No Brasil, a maioria dos estados já permite registrar ocorrências de crimes digitais pela internet, sem sair de casa e sem enfrentar filas em delegacia. Neste guia, você vai aprender como funciona a delegacia virtual como registrar cada tipo de crime digital, quais informações e evidências preparar antes do registro e o que acontece depois que o BO é gerado.
Quando Registrar um BO por Crime Digital
Nem toda situação desagradável na internet é crime — mas muitas são, e saber distinguir faz toda a diferença. Registrar um BO para uma situação que não configura crime gera frustração e desperdiça recursos policiais. Por outro lado, deixar de registrar quando deveria significa que o criminoso fica impune e a vítima perde a janela de tempo para coleta de evidências eletrônicas.
O Código Penal brasileiro e leis complementares tipificam diversos crimes que acontecem no ambiente digital. A invasão de dispositivo informático (Art. 154-A), inserida pela Lei Carolina Dieckmann em 2012, cobre situações como hackeamento de celular, acesso não autorizado a contas e instalação de spyware. A ameaça (Art. 147), o estelionato (Art. 171) e a extorsão (Art. 158) se aplicam independentemente de terem ocorrido online ou offline. A Lei 13.718/2018 criminalizou a divulgação de imagens íntimas sem consentimento. E o cyberstalking foi expressamente tipificado pela Lei 14.132/2021 como crime de perseguição.
Na prática, os crimes digitais mais comuns que justificam BO incluem golpes financeiros via PIX ou transferência, clonagem de WhatsApp, invasão de contas de redes sociais, phishing com prejuízo financeiro, ameaças por mensagens, divulgação de imagens íntimas, cyberstalking e fraude de identidade online. Se você sofreu qualquer uma dessas situações, o registro do BO é o primeiro passo formal para buscar justiça — e em muitos casos, é pré-requisito para que o banco ou a plataforma tome providências.
É importante entender que o BO não é apenas para "resolver o problema" — é um documento oficial que formaliza a ocorrência para fins legais, estatísticos e investigativos. Mesmo que você não tenha expectativa de que o criminoso será preso, o BO serve como prova documental para ações cíveis (indenização por danos), pedidos de estorno em bancos, solicitações de remoção de conteúdo a plataformas e processos junto à LGPD quando envolve vazamento de dados pessoais.
Delegacia Virtual: Como Funciona o Registro Online
A delegacia virtual é um sistema online mantido pela Secretaria de Segurança Pública de cada estado que permite registrar boletins de ocorrência sem comparecer presencialmente a uma delegacia. O sistema varia de estado para estado — tanto na interface quanto nos tipos de crime que aceita — mas o conceito fundamental é o mesmo em todos.
O processo típico em uma delegacia virtual começa com a identificação do declarante. Você precisa informar CPF, RG, nome completo, data de nascimento, endereço e dados de contato. Alguns estados exigem cadastro prévio com validação por e-mail ou SMS. Em seguida, você seleciona o tipo de ocorrência. A maioria das delegacias virtuais oferece categorias como "crime cibernético", "estelionato", "ameaça", "furto" ou categorias genéricas como "outros crimes." Para crimes digitais especificamente, procure por "crime cibernético", "delito praticado por meio eletrônico" ou similar.
O campo mais importante do BO é a narrativa dos fatos. Aqui, você descreve em detalhes o que aconteceu, quando aconteceu, como descobriu e quais prejuízos sofreu. Seja o mais específico possível: datas e horários exatos, valores envolvidos, plataformas utilizadas (WhatsApp, Instagram, e-mail, internet banking), nomes de usuário ou números de telefone do suspeito quando conhecidos. Uma narrativa vaga como "fui vítima de golpe na internet" não ajuda a investigação. Uma narrativa como "no dia 15/01/2026, às 14h32, recebi mensagem do número (11) 9XXXX-XXXX no WhatsApp oferecendo investimento em criptomoedas, realizei transferência PIX de R$ 5.000 para a chave CPF XXX.XXX.XXX-XX às 15h10" dá aos investigadores pontos de partida concretos.
Após preencher todos os campos e revisar as informações, o sistema gera o BO com um número de protocolo. Guarde esse número — ele é sua referência para acompanhar o andamento da ocorrência. Em alguns estados, o BO precisa ser ratificado presencialmente em delegacia dentro de um prazo (geralmente 72 horas), especialmente para crimes mais graves. Verifique as instruções específicas do seu estado após a emissão.
Links das principais delegacias virtuais estaduais:
- São Paulo: delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br
- Rio de Janeiro: delegaciavirtual.rj.gov.br
- Minas Gerais: delegaciavirtual.sids.mg.gov.br
- Paraná: delegaciaeletronica.pr.gov.br
- Nacional (casos federais): SaferNet Brasil (new.safernet.org.br)
Preparando Evidências Antes do Registro
Um erro que muitas vítimas cometem é registrar o BO antes de preservar adequadamente as evidências. No mundo digital, evidências são voláteis — um perfil falso pode ser deletado, mensagens podem ser apagadas, páginas podem sair do ar. Preservar as provas antes de qualquer outra ação é fundamental, e o ideal é fazer isso antes mesmo de registrar o BO.
A forma mais simples de preservar evidências digitais é a captura de tela com contexto. Mas uma captura de tela comum pode ser facilmente contestada como manipulada. Para dar mais peso probatório, use ferramentas como o Verifact (verifact.com.br), uma plataforma brasileira que registra capturas de tela com hash criptográfico, timestamp e certificação digital — produzindo um documento com valor jurídico reconhecido por tribunais brasileiros. Alternativamente, a Ata Notarial lavrada por tabelião é a forma mais robusta de preservar evidências digitais, embora tenha custo (geralmente entre R$ 200 e R$ 500 dependendo do cartório).
Para cada tipo de crime digital, existem evidências específicas que devem ser preservadas. Em golpes financeiros, salve comprovantes de transferência, extratos bancários, conversas com o golpista e dados da conta de destino. Em invasão de contas, faça capturas das notificações de acesso não autorizado, do histórico de login mostrando dispositivos desconhecidos e de qualquer alteração feita pelo invasor. Em perfis falsos, capture o perfil completo (foto, bio, postagens), a URL do perfil e evidências de que as fotos ou informações pertencem a você.
Informações técnicas que valorizam significativamente um BO de crime digital:
- IPs e endereços de e-mail do suspeito quando disponíveis
- URLs completas de páginas e perfis envolvidos (não apenas capturas de tela)
- Headers de e-mail em casos de phishing (revelam IP de origem)
- Chaves PIX e dados bancários do destinatário em golpes financeiros
- Números de telefone usados pelo criminoso
- Timestamps de cada interação (datas e horários exatos)
Delegacias Especializadas em Crimes Cibernéticos
Embora a delegacia virtual seja o canal mais acessível para o registro inicial, casos complexos frequentemente precisam ser encaminhados para delegacias especializadas em crimes cibernéticos. Essas unidades possuem equipamentos, software e pessoal treinado para investigações digitais que delegacias comuns simplesmente não têm capacidade de conduzir.
A maioria dos estados brasileiros possui alguma forma de delegacia especializada em crimes digitais, embora a nomenclatura e a estrutura variem. Em São Paulo, a 4ª Delegacia de Delitos Cometidos por Meios Eletrônicos (DIG/DEIC) é a principal referência. No Rio de Janeiro, a Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) atende casos de grande complexidade. Em Minas Gerais, o DERCIFE (Delegacia Especializada de Repressão a Crimes de Informática e Fraudes Eletrônicas) concentra as investigações digitais. A Polícia Federal também atua em crimes cibernéticos de âmbito federal, como fraudes bancárias de grande escala, invasão de sistemas governamentais e crimes que envolvem cooperação internacional.
O que poucos sabem é que você pode registrar o BO na delegacia virtual e posteriormente solicitar que o caso seja transferido para a delegacia especializada. Na narrativa do BO, mencione explicitamente que se trata de crime cibernético e solicite o encaminhamento. Alternativamente, compareça diretamente à delegacia especializada com todas as evidências já organizadas — isso acelera significativamente o processo porque os investigadores especializados sabem exatamente quais dados solicitar a provedores de internet, plataformas e instituições financeiras.
Para casos que envolvem conteúdo ilegal na internet — como divulgação de imagens íntimas, discurso de ódio ou exploração infantil — a SaferNet Brasil (new.safernet.org.br) recebe denúncias e encaminha diretamente ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal. A SaferNet processou mais de 4 milhões de denúncias desde sua fundação e mantém parceria com as principais plataformas de internet para remoção de conteúdo ilegal.
O Que Acontece Depois do Registro
Registrar o BO é o começo, não o fim. Entender o que acontece após o registro ajuda a calibrar expectativas e a tomar ações complementares que aumentam as chances de resolução do caso. A realidade é que a maioria dos crimes digitais de menor valor não resulta em investigação aprofundada — mas existem ações que você pode tomar para fortalecer seu caso.
Profissionais do direito digital utilizam ferramentas como o HI SPY para obter dados de localização em contextos legais — sem as complexidades de apps espiões que podem comprometer a validade das provas.
Após o registro, o BO é enviado para a delegacia de circunscrição ou para a delegacia especializada, onde um delegado avalia a natureza do crime e decide se instaura inquérito policial. Para crimes de menor potencial ofensivo (pena máxima de 2 anos), o caso pode ser encaminhado ao Juizado Especial Criminal (JECrim). Para crimes mais graves, o inquérito policial é instaurado e os investigadores podem requisitar dados a provedores de internet, plataformas e instituições financeiras mediante autorização judicial.
É aqui que o fator tempo se torna crítico. O Marco Civil da Internet obriga provedores de conexão a manter registros por 1 ano e provedores de aplicação por 6 meses. Se a investigação demora meses para requisitar esses dados, informações essenciais podem ser perdidas. Vítimas proativas podem solicitar ao delegado que emita um pedido de preservação de dados imediatamente após o registro — essa medida obriga os provedores a manter os registros mesmo após o prazo legal, até que sejam oficialmente requisitados.
Ações complementares que fortalecem seu caso após o BO:
- Solicite preservação de dados ao delegado nos primeiros dias
- Registre reclamação no Procon em casos de fraude de consumo
- Notifique a plataforma (Instagram, WhatsApp, banco) com o número do BO
- Consulte um advogado especializado em direito digital para ação cível paralela
- Acompanhe o andamento periodicamente (presencialmente ou via sistema online)
- Atualize o BO caso surjam novas evidências ou desenvolvimentos
Erros Que Enfraquecem seu Boletim de Ocorrência
Existem erros comuns que vítimas de crimes digitais cometem durante e após o registro do BO, e cada um deles pode prejudicar a investigação ou até inviabilizar ações legais futuras. Conhecer esses erros antes de precisar registrar uma ocorrência é a melhor forma de evitá-los.
O erro mais grave é não preservar evidências antes de tomar ação. Se você descobre que sua conta foi invadida e imediatamente altera a senha e recupera o acesso, pode estar destruindo evidências do acesso não autorizado (registros de login do invasor, mensagens enviadas por ele, alterações feitas). A sequência correta é: primeiro preserve evidências (capturas de tela, exportação de dados), depois notifique a plataforma e altere credenciais. Para quem trabalha com investigação digital, essa sequência é axiomática — mas para vítimas em pânico, a reação instintiva de "retomar o controle" frequentemente compromete provas.
Outro erro frequente é a narrativa incompleta ou emocional demais. O BO é um documento técnico, não um desabafo. Frases como "fui enganado por uma pessoa terrível" não ajudam a investigação. Fatos objetivos como "transferi R$ 3.200 via PIX para a chave XXX no dia XX/XX às XX:XX após receber mensagem do número XXX prometendo retorno de investimento" dão aos investigadores informações concretas para trabalhar. Inclua todos os dados disponíveis — deixar de mencionar um número de telefone ou uma URL por achar "irrelevante" pode ser a diferença entre uma investigação produtiva e uma que não vai a lugar algum.
A demora no registro é outro fator que enfraquece o caso. Evidências digitais são efêmeras: perfis são deletados, mensagens desaparecem, registros de servidor expiram. Quanto mais tempo entre o crime e o BO, menor a chance de que os dados necessários ainda estejam disponíveis. O ideal é registrar o BO nas primeiras 24 horas após a descoberta do crime — e solicitar preservação de dados imediatamente.
⚖️ Rastreamento profissional para uso legal. O HI SPY gera dados de localização em tempo real, sem instalação no dispositivo alvo. Ideal para investigações com respaldo jurídico. Saiba mais →
FAQ
Posso registrar BO online para qualquer tipo de crime digital?
Depende do estado. A maioria das delegacias virtuais aceita registro de crimes como estelionato digital, ameaça, invasão de dispositivo, furto mediante fraude e injúria. Porém, crimes mais graves como extorsão sexual, exploração infantil e crimes que envolvem violência geralmente exigem registro presencial. Verifique no site da delegacia virtual do seu estado quais categorias estão disponíveis. Se o tipo de crime que você sofreu não aparece nas opções online, compareça presencialmente à delegacia mais próxima ou à delegacia especializada em crimes cibernéticos.
O BO online tem o mesmo valor jurídico do presencial?
Sim. O boletim de ocorrência registrado pela delegacia virtual tem exatamente o mesmo valor jurídico de um registrado presencialmente. Ele é assinado digitalmente e gera número de protocolo oficial vinculado ao sistema da Polícia Civil estadual. Alguns estados exigem ratificação presencial dentro de um prazo para determinados tipos de crime — verifique as instruções que acompanham seu BO. Essa ratificação não invalida o registro online; apenas complementa o processo com identificação presencial e, quando necessário, coleta de depoimento mais detalhado.
Quanto tempo a polícia leva para investigar um crime digital?
Não existe prazo fixo. A duração da investigação depende da complexidade do caso, da disponibilidade de evidências, da carga de trabalho da delegacia e da necessidade de cooperação de plataformas e provedores. Casos simples com evidências claras — como golpes de PIX onde os dados do destinatário são conhecidos — podem ser resolvidos em semanas. Casos complexos envolvendo múltiplos suspeitos, servidores internacionais ou criptografia podem levar meses ou anos. Na prática, o acompanhamento ativo do caso pela vítima — consultando regularmente o andamento e fornecendo novas evidências quando surgem — tende a acelerar o processo.
Posso denunciar crimes digitais diretamente ao Ministério Público?
Sim. Além do BO policial, vítimas podem registrar representações diretamente no Ministério Público estadual ou federal. O MP tem poder de requisitar investigações independentes e pode instaurar procedimentos investigatórios criminais (PICs) por iniciativa própria. Para crimes digitais que envolvem interesse coletivo — como vazamento massivo de dados, fraude em larga escala ou conteúdo ilegal online — a denúncia ao MP pode ser mais eficaz que o BO individual. A SaferNet Brasil também encaminha denúncias diretamente ao MPF para crimes relacionados a direitos humanos na internet.
